











Fotografias e montagens por Nuno Goncalves. Alicante, Espanha 2006.








Canhoes expostos na Fortaleza da Nossa Senhora da Conceicao, construida em 1781.
Cartaz alusivo ao dia 1 de Maio afixado na Praca dos Trabalhadores, antiga Praca Mac-Mahon.
Estacao dos Caminhos de Ferro de Mocambique, situada na Praca dos Trabalhadores, antiga Praca Mac-Mahon.
Art-Deco na fachada de um edificio em Maputo.
Trabalhadores renovando a calcada central na avenida 24 de Julho.
Cafe Continental, onde se podem comer os melhores pasteis de nata de Maputo.
Estatua de Samora Machel, primeiro Presidente da Republica de Mocambique, situada na avenida tambem de seu nome.
Bazar de artesanato, situado em frente a Fortaleza da Nossa Senhora da Conceicao.
Artesanato talhado a partir de madeira de nome Sandalo. Bazar de artesanto.
Cidade 1985
De manha quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.
De manha quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militancia política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.
De manha quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.
De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do res-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para as cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergetico de Komatipoort
mais as ó eme sed de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca,
as ordens de um Mouzinho boer.
De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentissima paciência desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandas estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.
Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.
À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.
Carlos Cardoso - Maputo, 1985















